O filme “A Vila” de cara nos assusta um pouco, pois dá a entender que será um filme de terror e suspense, mas no decorrer dos fatos, percebemos que é uma história cheia de mistérios.
No começo, vemos todos comendo juntos, agradecendo antes em forma de oração, se ajudando nas tarefas (as meninas lavando as louças, as mulheres varrendo suas casas), sempre se divertindo, felizes, exemplos da consciência coletiva, onde o coletivo tem um peso maior que o individual e da solidariedade mecânica, que predomina nas sociedades simples com pouca divisão interna de trabalho social, ambas as teorias defendidas pelo sociólogo Durkeim; Gina pedindo a bênção de seu pai para se casar, pois é uma jovem que vê o amor como uma bênção e agradece por isso, diferente dos jovens dos dias atuais, que não têm mais o costume de pedir a benção e só querem saber de ficar, vulgarizando esse sentimento tão puro, bonito e intenso; Ivy, irmã de Gina, se ofendendo com a frase “Não vale roubar” dita por seu amigo Noah, na qual estava lhe propondo uma corrida, se magoando com uma brincadeira, um modo de dizer uma coisa que hoje, infelizmente, virou banal; O senso comum da morte do animal que dá a idéia de que é uma coisa ruim, errada, pois é um conceito que foi passado por gerações, além de ser também um exemplo de fato social defendido por Durkeim. Com tudo isso, enxergamos então que aquela é uma “sociedade perfeita”, onde todos gostariam de morar, pois nos mostra uma vivência simples, coletiva e harmônica, que para esse sociólogo é o que a sociedade busca, porém, temerosa por causa das lendas.
Porém, ao sabermos pelos anciões que há um acordo entre o vale e a floresta proibida, de que um não pode invadir o outro, pra não violar esse acordo e não ocasionar em coisas ruins; que as pessoas da vila repudiam o vermelho, pois falam que essa cor representa aqueles que eles não podem mencionar (que para o povoado são animais, tipo coiotes que vivem na floresta, já hoje em dia, os animais são as próprias pessoas que roubam, matam...); que o amarelo significa a cor da segurança, entre outras coisas, compreendemos que esta é uma história bem mais complexa do que imaginamos, justamente o que Heráclito de Éfeso sustentava, de que tudo se relaciona com complexidade.
Mas tudo começa a ser explicado quando Lucius, que é um jovem muito corajoso, decide ir até à cidade em busca de remédios para a cura dos necessitados do vilarejo, como Ivy, que é cega e Noah, que tem problemas mentais. Mais é impedido por este, que ao saber do seu romance com Ivy, o esfaqueou por amor, que vendo seu companheiro entre a vida e a morte, pede permissão a seu pai para que ela mesma possa atravessar a floresta para trazer medicamentos para salvar a vida de Lucius, que com essa atitude, tanto ela, quanto ele, demonstram o conceito de Anomia defendido por Marx. O Sr. Walker permitiu, mas não pôde ir junto porque falou que foi a filha que deu seu coração a Lucius, então é ela que tem que cumprir com sua responsabilidade. Ao ser questionado sobre deixá-la concretizar esse ato sozinha, mesmo sendo deficiente visual, o Sr. Walker respondeu: “Ela é mais capaz do que a maioria de nós, ela é guiada pelo amor, e é o amor quem move o mundo, o amor é capaz de tudo”, e um amigo dele completou: “Ivy está indo em direção à esperança”. Porém, antes de deixar sua filha ir, o Sr. Walker teve uma conversa com ela, a contando que o seu pai morreu por dinheiro, pois o sócio dele o matou e depois se enforcou, por conta disso, para ele o dinheiro mancha a alma dos homens, por isso que o dinheiro não faz parte da realidade das pessoas que vivem na vila. Disse-lhe também que os gritos vindos da floresta eram as próprias pessoas que criavam os sons; Na Cerimônia da Carne, esta era retirada pelos próprios anciões; Os treinamentos eram porque não queriam que ninguém fosse para as cidades, e sobre os animais esfolados, algum ancião deve ter sido responsável, para evitar que alguém atravessasse a floresta, que para eles, era sinônimo de perder seus entes queridos, deixando Ivy decepcionada com todos os anciões, inclusive com seu pai, que é o líder deles.
E as emoções não param por aí. Noah foge da prisão de onde estava por ter cometido o crime contra Lucius (que é uma espécie de quarto trancado por cadiado) e encontra uma roupa que os anciões usavam para amedrontar as pessoas do vilarejo, pôs a vestimenta e seguiu para floresta atrás de Ivy, que acabou o matando pensando que ele era um animal. Ao saberem da triste notícia, os anciões chegaram à conclusão de que ele tornou as histórias do vilarejo reais, e resolveram omitir a verdade e contar para o povo que Noah morreu sendo atacado por aqueles que não podem mencionar. Em contra-partida, Ivy ao chegar na cidade se assustou ao perceber que lá tinha bondade (vinda do policial que a ajudou) e ao regressar à vila, levou os remédios para a cura de seu grande amor.
Agora vale lembrar que quando Ivy chega na cidade, notamos que a família dela é a dona da floresta, pois é o seu sobrenome, Walker, que está estampado na porta do carro do vigia, que pode ter a ajudado pelo fato dela dizer o nome completo e ele perceber que ela é a filha do patrão; antes dela ir, na conversa de desabafo do pai, ele fala que dinheiro mancha a alma do homem e que por isso na vila eles não ligam pra isso, sendo que para fundar uma vila foi preciso ter dinheiro e ele sendo dono de toda a floresta, conseqüentemente tem negócios na cidade, então ele liga sim para dinheiro, se contradizendo como Marx mesmo já consolidava no século XIX, afirmando a contradição como a própria substância da realidade. Vale ressaltar também, que os anciões foram idealistas, pois tiveram primeiro a idéia e depois partiram para a prática, como Hegel pensava, ao criar uma vila em busca de refúgio de uma cidade cheia de violência, propondo uma sociedade igualitária, única, com padrão de vida, regras e costumes próprios; a falta de informação que eles tinham, o que os levou a visão de Etnocentrismo, na qual eles viam a realidade deles como a única, e o poder de manipulação que os anciões exerciam sobre o restante do vilarejo, tanto que eles conseguiram que durante anos ninguém passasse pela lendária floresta e chegasse à temida cidade.
As questões que ficam em aberto no filme são: “Será que agora mesmo sabendo de toda a verdade Ivy vai se calar ou vai tentar mostrar a realidade ao povo? Será que eles vão continuar mantendo o mesmo padrão de vida, mesmo depois de Ivy já saber da verdade e de um membro da vila ter chegado à cidade? Será que o mocinho do filme, Lucius, vai sobreviver depois do ataque de Noah?”, lembrando que Marx afirma que a luta de classes é o motor da história, e só esse embate entre a classe dominada (todo o vilarejo) contra a classe dominante (os anciões) poderá mudar o destino daquele lugar.